O que é Gohonzon

Na primeira vez que fui a uma reunião de palestra do Budismo de Nitiren Daishonin, estranhei que as pessoas recitavam o mantra olhando para o Gohonzon, o objeto de devoção dessa linha. Primeiro porque se trata de um pergaminho com inscrições em chinês, e eu não entendia nada. Depois, por me parecer uma adoração. Aos poucos, fui entendendo a profundidade que contém o Gohonzon, que vai além do significado literal daqueles caracteres. E entendi também que não se trata de um objeto de adoração.

BudsudanPara explicar melhor o Gohonzon, vou começar contando sobre uma passagem do Sutra de Lótus, a base do Budismo de Nitiren Daisnhonin.

O Sutra de Lótus contém 28 capítulos, que mostram os meios que o Buda Sakyamuni encontrou para explicar aos seus discípulos e ouvintes a grandiosidade do budismo. No capítulo 10 ele prega no Pico da Águia (Gridhrakuta, em sânscrito), uma montanha que fica na Índia, para milhares de ouvintes. No capítulo seguinte, entre Sakyamuni e os ouvintes, surge e eleva-se no ar a Torre do Tesouro, uma imensa e magnífica torre, que mede cerca do raio da Terra, toda adornada em pedras preciosas. Através de seus poderes místicos, Sakyamuni e todas as pessoas que estavam presentes na assembleia também são transportados para o ar. Dentro da Torre, está o Buda Taho (Buda de Muitos Tesouros), que convida Sakyamuni para entrar. Ele senta-se ao lado do Buda Taho, que confirma que tudo o que ele disse até então é verdadeiro. Essa passagem é chamada de Cerimônia no Ar.

A Cerimônia no Ar não aconteceu de fato, mas é uma metáfora de como os ensinamentos do Buda ultrapassam os limites do espaço e tempo. Se a Cerimônia tivesse acontecido no Pico da Águia, poucas pessoas teriam tido acesso. Acontecendo no ar, a cerimônia amplia seu alcance, o que significa que todos aqueles que ouvem sobre o Sutra de Lótus estão ali presentes. A Torre do Tesouro representa toda a riqueza que se pode conquistar com o budismo. As joias, inclusive, são usadas como alegoria em diversos textos budistas para representar essa grandiosidade.

O Gohonzon

Quando Nitiren Daishonin compreendeu a Lei Mística, inscreveu numa madeira a natureza dessa lei em caracteres chineses. Os caracteres representam a Cerimônia no Ar, com os nomes dos participantes: o Buda Sakiamuni, Taho, diversos deuses e Bodhisattvas. Ao centro, na vertical, está escrito Nam-myoho-rengue-kyo, que significa despertar para a Lei Universal, e representa a Torre do Tesouro.

No Gohonzon também estão representados os dez estados de vida, que estão presentes em todas as pessoas:

  1. Intenso sofrimento e desespero (Inferno)
  2. Desejos insaciáveis (Fome),
  3. Egoísmo e Estupidez (Animalidade),
  4. Arrogância e Beligerância (Ira),
  5. Calma Provisória (Tranquilidade),
  6. Alegria Intensa Provisória (Êxtase),
  7. Auto Aperfeiçoamento (Erudição),
  8. Despertar para Verdades Parciais da Natureza e Humanidade (Absorção),
  9. Altruísmo (Bodhisattva),
  10. Estado de felicidade com base na compaixão e sabedoria (Estado de Buda).

De forma gráfica, o Gohonzon mostra que, quando embasados firmemente na Lei do Nam-myoho-rengue-kyo, cada um dos dez estados de vida pode ser um caminho para nos trazer aprendizados ou desafios que visam nutrir nossa existência e trazer a felicidade. Por exemplo, embora possamos nos encontrar no estado de Inferno, através de nossas orações ao Gohonzon, podemos transformar nosso intenso sofrimento e desespero como fonte de força e esperança para superar todas as dificuldades.

Como podemos ter acesso a todos os tesouros que a Torre representa? Nitiren Daishonin nos encoraja com as seguintes palavras: “Quanto recitar a Lei Mística e ler o Sutra de Lótus, deve evidenciar a forte convicção de que o Myoho-rengue-kyo é a sua própria vida“. Em outras palavras, Nitiren Daishonin nos ensina que a vida é o maior tesouro. A esse respeito ele ainda escreve: “Nunca procure o Gohonzon em outros lugares. Ele somente pode habitar no coração das pessoas comuns, como nós, que abraçam o Sutra de Lótus e recitam o Nam-myoho-rengue-kyo“. Essa compreensão é o que o budismo chama de iluminação.

EspelhoAo olharmos para o Gohonzon é como se estivéssemos diante da Torre do Tesouro, com a possibilidade de receber todas as suas joias e os ensinamentos budistas. Ele representa ainda um espelho, o que significa que a Cerimônia está acontecendo dentro de nós. Ao orar para o Gohonzon estamos ativando nossa natureza de Buda, presente na vida de cada ser.

Assim, a força do Gohonzon não é algo externo, contido no pergaminho em si. Ela está dentro de nós. O Gohonzon sozinho não faz nada. Ele não controla nossas vidas, não nos concede benefícios ou nos pune. Ele apenas nos coloca em contato com nossa natureza de Buda para que nós, e somente nós, possamos definir o rumo de nossas vidas com plena felicidade.

San

Como se pratica o Budismo de Nitiren Daishonin?

A prática se resume à recitação do Gongyo (prática complementar) e do Daimoku (prática principal) pela manhã e à noite

Gongyo é a recitação do capítulo Hoben (Meios) e do trecho Jigague do capítulo Juryo (Revelação da Vida Eterna do Buda), considerados os mais importantes entre os 28 capítulos do Sutra de Lótus.

Recitar Daimoku é o mesmo que recitar Nam-myoho- rengue-kyo, que significa “Devotar a vida – Lei Mística – Causa e Efeito – Eternidade da Vida”, por repetidas vezes. “Myoho-rengue-kyo” é a tradução do título do Sutra de Lótus (“Saddharma-pundarika Sutra” em sânscrito) para o chinês, feita por Kumarajiva. E “nam” deriva do sânscrito “namus”, e significa “devoção”. Quando for recitar, pense em algo que deseja concretizar. Ao recitarmos Nam-myoho-rengue-kyo, nos conectamos com a Lei Mística que rege o universo, que é a Lei da Causa e Efeito. Neste exato momento, estimulamos em nós o Estado de Buda, além de entrar em sintonia com as forças em equilíbrio do universo. Assim, criamos força para lutarmos por nossos objetivos, além de atrair “boa sorte”.

buda1Começa-se com o Gongyo (capítulo Hoben e trecho Jigague) e logo em seguida o Daimoku (Nam-myoho-rengue-kyo). A recitação deve ser feita de olhos abertos, com a postura ereta, sentado em uma cadeira ou no chão, com as mãos juntas na altura do peito. Se ainda não tem o gohonzon, deve-se recitar olhando para frente, em uma parede em branco, ou escreva seu desejo em um papel e o coloque na parede. Não devemos ter uma postura de pedinte, mas de realizadores, agradecendo mentalmente o que temos hoje e o que queremos receber com forte determinação. Enquanto recita, a voz deve ser alta e clara, de modo a sentir a vibração das vogais em seu corpo. O ritmo deve ser rápido, mas para começar, podemos fazer lentamente para entender a pronúncia.

Você pode começar recitando o Daimoku por cinco minutos, e aumentar gradualmente. Não há um tempo limite estabelecido, vai de cada um. Mas já ouvi veteranos dizendo que o Nam-myoho-rengue-kyo é como um combustível. Se você quer ir até Campinas, usa um tanto de combustível. Se quer ir ao Japão, usa bem mais. Para onde você quer ir? Qual o tamanho do seu desejo? Esse é o tempo que você deve recitar.

Existem dois tipos de benefícios que se manifestam com a prática budista:

Visíveis – que muitas vezes parecem milagres, mas não são! É apenas a reação do seu meio ambiente à sua mudança de vibração. Ex.: Uma oferta de emprego, uma quantia em dinheiro que você precisava, uma oportunidade de estudos, um presente inesperado etc.

Invisíveis – são as mudanças internas que ocorrem no indivíduo devido à prática budista. É a sua Revolução Humana! Ex.: calma, autoconfiança, bom senso etc.

Experimente recitar o Gongyo e o Daimoku. Certamente em pouco tempo a prática te mostrará resultados. Se dê essa oportunidade e desafie-se 😉

San

Tradução do Gongyo

 

Para treinar, o Gongyo em ritmo lento

 

Mas o que é o budismo?

“Buda” é um termo que em sânscrito significa “desperto” ou “iluminado”.

Historicamente, a primeira pessoa que se tem registro de ter atingido a iluminação como Buda foi Siddharta Gautama, príncipe do reino dos Sakyas, que viveu no século VI a.C. na Índia. Após muitas práticas religiosas e meditar profundamente, ele se despertou para a solução dos sofrimentos humanos – nascimento, velhice, doença e morte. Depois disso, passou a pregar seus ensinamentos e ficou conhecimento como Sakyamuni (o sábio dos Sakyas).

flor de lotusOs primeiros ensinamentos de Sakyamuni falavam sobre longas práticas, que poderiam durar milhares de encarnações, para que se atingisse a iluminação ou Estado de Buda. Só depois de cerca de 40 anos de pregação, já nos oito últimos anos de sua vida, o buda Sakyamuni pregou o Sutra de Lótus, que diferia de todos os outros anteriores. Pela primeira vez, ele disse que as mulheres e incultos também poderiam atingir a iluminação.  Que mesmo aqueles que carregavam pesados carmas negativos também poderiam atingir a iluminação. Mais importante que tudo isso, qualquer pessoa poderia atingir a iluminação e encontrar a verdadeira felicidade nesta vida. Bastaria seguir a Lei Mística.

O complicado é que o texto do Sutra de Lótus não deixou claro qual era essa lei mística, e por isso, o sutra foi ignorado por muitas correntes budistas por muito tempo. Somente no século XIII, o monge japonês Nitiren Daishonin compreendeu e revelou a Lei Mística, após muitos anos de estudos do Sutra de Lótus. A solução para a felicidade nesta vida é a Lei Mística, ou a Lei da Causa e Efeito, traduzida em chinês para o mantra Nam-Myoho-Rengue-Kyo (Devotar a vida – Lei mística – Causa e Efeito – Eternidade da vida). Em resumo, nossa felicidade depende unicamente de nossas ações, e não de qualquer ser ou entidade fora de nós. E recitar o mantra que é o nome dessa lei nos coloca em sintonia com ela, aproximando-nos do que nos dá felicidade.

Por ter compreendido e revelado a Lei Mística, Nitiren Daishonin também é considerado Buda, e o conhecido como Budismo de Nitiren segue seus ensinamentos.

Esse blog pretende esclarecer aos poucos esses ensinamentos que parecem ser tão naturais e tão profundos quanto a própria vida.

Beijo a todos!

San