Nitiren Daishonin

Mesmo quando nos dispomos a conhecer uma nova crença, é difícil se abrir totalmente logo de imediato, recitando todos os mantras ou orações e citando nomes e palavras que não conhecemos.

Assim também foi comigo em relação ao budismo de Nitiren 🙂

Por isso decidi colocar no blog pequenos textos explicando as orações silenciosas que fazemos ao final do gongyo, já que, na verdade, é mais importante manifestarmos nossa real gratidão enquanto oferecemos as orações do que simplesmente ler o seu conteúdo de maneira ritual.

Espero que ajude em suas buscas!

Oração aos Três Mestres

A primeira parte deste trecho diz:

“Devotando-me respeitosamente a Nitiren Daishonin, o Buda Original dos Últimos Dias da Lei, ofereço minhas sinceras orações em agradecimento pelos benefícios conquistados.”

saky_dharmaSidarta Gautama (aprox. 560-480 a.C.), que ficou conhecido como Buda Sakyamuni, foi o primeiro homem que registrou ter alcançado o estado de Buda ou iluminação. Para seus primeiros discípulos, Sakyamuni deixou uma série de ensinamentos preparatórios, para que no futuro fossem revelados os ensinamentos que de fato poderiam levar à iluminação. No Sutra de Lotus, o Buda Sakyamuni disse que seria preciso muita coragem para que seus ensinamentos fossem propagados nos Últimos Dias da Lei, período em que seriam encontradas diversas dificuldades para a propagação da verdade contida no budismo.

Segundo o pensamento budista, qualquer religião pode ser dividida em três períodos, dependendo do grau de influencia que ela exerce nas pessoas. No budismo esses períodos foram os seguintes:

– “Primeiros Dias da Lei”, quando oferece meios práticos para resolver problemas imediatos. Duraram cerca de mil anos e foi o período em que o budismo foi praticado na Índia e a prática se baseava na pureza da fé;

– “Médios Dias da Lei”, quando a religião já está estabelecida na cultura e na sociedade, porém torna-se formalizada e deixa de ser relevante para as necessidades das pessoas. Também duraram cerca de mil anos e propagou-se na China, e chegou ao Japão. A religião tornou-se ritualizada;

– “Últimos Dias da Lei”, quando perde totalmente sua eficácia. Pelos cálculos, teria início por volta do ano 1052 d.C. Nesse período, as ordens budistas tornaram-se ricas e os monges guiavam-se por desejos de fama e outras ambições.

Com o tempo, muitos seguidores esqueceram-se de que Sakyamuni era o fundador do budismo, e novas escolas apareceram em sucessão, louvando os poderes de budas imaginários ou negando a necessidade de estudar a doutrina ou de realizar a prática do budismo. O verdadeiro espírito do budismo havia sido totalmente esquecido por volta do início do século XIII no Japão. Por volta dessa mesma época, o budismo da Índia acabou sofrendo o impacto do islamismo da região oeste e desapareceu, embora esse budismo já viesse mantendo uma subsistência conjunta com o esoterismo desde a extinção dos sucessores de Sakyamuni no século VI. De forma semelhante, após a morte de Tient’ai, o budismo da China entrou em decadência, sendo corroído pela influência do esoterismo indiano e pela predominância da devoção do Buda Amida, que era uma derivação do próprio budismo. Além disso, a invasão da China pelos mongóis ocorrida no século XIII causou o total declínio do budismo.

Em meio a essa confusão, Nitiren Daishonin fez seu advento.

Buda NitirenNascido quase dois mil anos depois de Sakyamuni, Nitiren Daishonin (1222 – 1282)  tornou-se monge e estudou profundamente o budismo. Através de documentos antigos, percebeu que as correntes dominantes na época desviavam-se da essência do pensamento de Sakyamuni. Encontrou o ponto central do pensamento do Buda – o Sutra de Lótus – e dali fez renascer o budismo ao revelar a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo e o efeito revitalizador e transformador que essa prática traz ao indivíduo. Concentrou sua percepção no Gohonzon e deixou a prática do Daimoku como a chave para a iluminação de qualquer ser humano.

Daishonin foi extremamente perseguido, tanto por seitas budistas como por governantes. Foi  exilado, foi alvo de emposcadas e chegou a ser condenado à morte, da qual escapou por diversas vezes. Durante três anos, Daishonin revelou os ensinamentos àqueles que acreditavam em suas palavras, e faleceu pacificamente na residência de um seguidor.

NitirenPor ter atingido a iluminação por si só e ter revelado a verdade fundamental da vida, Nitiren é conhecido como o Buda Original dos Últimos Dias da Lei.

San

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O que é Gohonzon

Na primeira vez que fui a uma reunião de palestra do Budismo de Nitiren Daishonin, estranhei que as pessoas recitavam o mantra olhando para o Gohonzon, o objeto de devoção dessa linha. Primeiro porque se trata de um pergaminho com inscrições em chinês, e eu não entendia nada. Depois, por me parecer uma adoração. Aos poucos, fui entendendo a profundidade que contém o Gohonzon, que vai além do significado literal daqueles caracteres. E entendi também que não se trata de um objeto de adoração.

BudsudanPara explicar melhor o Gohonzon, vou começar contando sobre uma passagem do Sutra de Lótus, a base do Budismo de Nitiren Daisnhonin.

O Sutra de Lótus contém 28 capítulos, que mostram os meios que o Buda Sakyamuni encontrou para explicar aos seus discípulos e ouvintes a grandiosidade do budismo. No capítulo 10 ele prega no Pico da Águia (Gridhrakuta, em sânscrito), uma montanha que fica na Índia, para milhares de ouvintes. No capítulo seguinte, entre Sakyamuni e os ouvintes, surge e eleva-se no ar a Torre do Tesouro, uma imensa e magnífica torre, que mede cerca do raio da Terra, toda adornada em pedras preciosas. Através de seus poderes místicos, Sakyamuni e todas as pessoas que estavam presentes na assembleia também são transportados para o ar. Dentro da Torre, está o Buda Taho (Buda de Muitos Tesouros), que convida Sakyamuni para entrar. Ele senta-se ao lado do Buda Taho, que confirma que tudo o que ele disse até então é verdadeiro. Essa passagem é chamada de Cerimônia no Ar.

A Cerimônia no Ar não aconteceu de fato, mas é uma metáfora de como os ensinamentos do Buda ultrapassam os limites do espaço e tempo. Se a Cerimônia tivesse acontecido no Pico da Águia, poucas pessoas teriam tido acesso. Acontecendo no ar, a cerimônia amplia seu alcance, o que significa que todos aqueles que ouvem sobre o Sutra de Lótus estão ali presentes. A Torre do Tesouro representa toda a riqueza que se pode conquistar com o budismo. As joias, inclusive, são usadas como alegoria em diversos textos budistas para representar essa grandiosidade.

O Gohonzon

Quando Nitiren Daishonin compreendeu a Lei Mística, inscreveu numa madeira a natureza dessa lei em caracteres chineses. Os caracteres representam a Cerimônia no Ar, com os nomes dos participantes: o Buda Sakiamuni, Taho, diversos deuses e Bodhisattvas. Ao centro, na vertical, está escrito Nam-myoho-rengue-kyo, que significa despertar para a Lei Universal, e representa a Torre do Tesouro.

No Gohonzon também estão representados os dez estados de vida, que estão presentes em todas as pessoas:

  1. Intenso sofrimento e desespero (Inferno)
  2. Desejos insaciáveis (Fome),
  3. Egoísmo e Estupidez (Animalidade),
  4. Arrogância e Beligerância (Ira),
  5. Calma Provisória (Tranquilidade),
  6. Alegria Intensa Provisória (Êxtase),
  7. Auto Aperfeiçoamento (Erudição),
  8. Despertar para Verdades Parciais da Natureza e Humanidade (Absorção),
  9. Altruísmo (Bodhisattva),
  10. Estado de felicidade com base na compaixão e sabedoria (Estado de Buda).

De forma gráfica, o Gohonzon mostra que, quando embasados firmemente na Lei do Nam-myoho-rengue-kyo, cada um dos dez estados de vida pode ser um caminho para nos trazer aprendizados ou desafios que visam nutrir nossa existência e trazer a felicidade. Por exemplo, embora possamos nos encontrar no estado de Inferno, através de nossas orações ao Gohonzon, podemos transformar nosso intenso sofrimento e desespero como fonte de força e esperança para superar todas as dificuldades.

Como podemos ter acesso a todos os tesouros que a Torre representa? Nitiren Daishonin nos encoraja com as seguintes palavras: “Quanto recitar a Lei Mística e ler o Sutra de Lótus, deve evidenciar a forte convicção de que o Myoho-rengue-kyo é a sua própria vida“. Em outras palavras, Nitiren Daishonin nos ensina que a vida é o maior tesouro. A esse respeito ele ainda escreve: “Nunca procure o Gohonzon em outros lugares. Ele somente pode habitar no coração das pessoas comuns, como nós, que abraçam o Sutra de Lótus e recitam o Nam-myoho-rengue-kyo“. Essa compreensão é o que o budismo chama de iluminação.

EspelhoAo olharmos para o Gohonzon é como se estivéssemos diante da Torre do Tesouro, com a possibilidade de receber todas as suas joias e os ensinamentos budistas. Ele representa ainda um espelho, o que significa que a Cerimônia está acontecendo dentro de nós. Ao orar para o Gohonzon estamos ativando nossa natureza de Buda, presente na vida de cada ser.

Assim, a força do Gohonzon não é algo externo, contido no pergaminho em si. Ela está dentro de nós. O Gohonzon sozinho não faz nada. Ele não controla nossas vidas, não nos concede benefícios ou nos pune. Ele apenas nos coloca em contato com nossa natureza de Buda para que nós, e somente nós, possamos definir o rumo de nossas vidas com plena felicidade.

San

Como se pratica o Budismo de Nitiren Daishonin?

A prática se resume à recitação do Gongyo (prática complementar) e do Daimoku (prática principal) pela manhã e à noite

Gongyo é a recitação do capítulo Hoben (Meios) e do trecho Jigague do capítulo Juryo (Revelação da Vida Eterna do Buda), considerados os mais importantes entre os 28 capítulos do Sutra de Lótus.

Recitar Daimoku é o mesmo que recitar Nam-myoho- rengue-kyo, que significa “Devotar a vida – Lei Mística – Causa e Efeito – Eternidade da Vida”, por repetidas vezes. “Myoho-rengue-kyo” é a tradução do título do Sutra de Lótus (“Saddharma-pundarika Sutra” em sânscrito) para o chinês, feita por Kumarajiva. E “nam” deriva do sânscrito “namus”, e significa “devoção”. Quando for recitar, pense em algo que deseja concretizar. Ao recitarmos Nam-myoho-rengue-kyo, nos conectamos com a Lei Mística que rege o universo, que é a Lei da Causa e Efeito. Neste exato momento, estimulamos em nós o Estado de Buda, além de entrar em sintonia com as forças em equilíbrio do universo. Assim, criamos força para lutarmos por nossos objetivos, além de atrair “boa sorte”.

buda1Começa-se com o Gongyo (capítulo Hoben e trecho Jigague) e logo em seguida o Daimoku (Nam-myoho-rengue-kyo). A recitação deve ser feita de olhos abertos, com a postura ereta, sentado em uma cadeira ou no chão, com as mãos juntas na altura do peito. Se ainda não tem o gohonzon, deve-se recitar olhando para frente, em uma parede em branco, ou escreva seu desejo em um papel e o coloque na parede. Não devemos ter uma postura de pedinte, mas de realizadores, agradecendo mentalmente o que temos hoje e o que queremos receber com forte determinação. Enquanto recita, a voz deve ser alta e clara, de modo a sentir a vibração das vogais em seu corpo. O ritmo deve ser rápido, mas para começar, podemos fazer lentamente para entender a pronúncia.

Você pode começar recitando o Daimoku por cinco minutos, e aumentar gradualmente. Não há um tempo limite estabelecido, vai de cada um. Mas já ouvi veteranos dizendo que o Nam-myoho-rengue-kyo é como um combustível. Se você quer ir até Campinas, usa um tanto de combustível. Se quer ir ao Japão, usa bem mais. Para onde você quer ir? Qual o tamanho do seu desejo? Esse é o tempo que você deve recitar.

Existem dois tipos de benefícios que se manifestam com a prática budista:

Visíveis – que muitas vezes parecem milagres, mas não são! É apenas a reação do seu meio ambiente à sua mudança de vibração. Ex.: Uma oferta de emprego, uma quantia em dinheiro que você precisava, uma oportunidade de estudos, um presente inesperado etc.

Invisíveis – são as mudanças internas que ocorrem no indivíduo devido à prática budista. É a sua Revolução Humana! Ex.: calma, autoconfiança, bom senso etc.

Experimente recitar o Gongyo e o Daimoku. Certamente em pouco tempo a prática te mostrará resultados. Se dê essa oportunidade e desafie-se 😉

San

Tradução do Gongyo

 

Para treinar, o Gongyo em ritmo lento